moda

30
mar

Por Helena Martinelli

Meu padrinho – um coroa elegantérrimo – outro dia me confessou sua indignação por ter lido uma coluna no jornal “A Tarde” que descrevia o Wayfarer como um modelo que surgiu nos “breguíssimos anos 80″. Ele, que é dono de um way preto original (o meu é mais fake que o meu cabelo) e de uma memória invejável, lembrou de uma cena ícone: Audrey Hepburn descendo do táxi usando um vestido Givenchy e um wayfarer preto no início de Bonequinha de Luxo.

Eu até entendo que a criatura que escreveu essa bobagem desconheça esse clássico do cinema e da cultura pop, mas será possível que ela nunca tenha se deparado com uma foto de Bob Dylan, John Kennedy ou Buddy Holly usando esse modelo? E que tal uma pesquisa básica, wikipedia mesmo, antes de escrever sobre alguma coisa? Juro, não dói!

Enfim, mais do que a falta de informação da jornalista, o que me deu raiva foi a referência pouco respeitosa à década de 80. Eu nasci em 1983 e tive a oportunidade de viver pessoalmente esse tempo de gosto duvidoso. E, ao contrário do que todo mundo pode pensar, atesto: foi ó-ti-mo!

Pode parecer ridículo aos olhos descontextualizados de hoje, mas aquele era um momento de empoderamento, afirmação e auto-expressão. Vejam as ombreiras sem fim de Melanie Grift em Uma Secretária do Futuro, as customizações aberrantes da personagem principal de Pretty in Pink*, Michael Jackson pesando 40kg (25kg só das roupas) e gritando que era mal… Nem sempre era bonito, mas que era divertido, isso era.

Logo depois desse tempo de tudoaomesmotempoagora, vieram os anos 90 e seu minimalismo sóbrio. O guarda-roupa foi esterelizado das estampas, balangandãs e sobreposições para produzir o visual clean. Como efeito colateral, produziu-se a crítica generalizada e automática à década anterior.

Ao contrário dos meus contemporâneos, eu não tenho vergonha das minhas ombreiras, botas da xuxa, maxi-mangas bufantes e rabos-de-cavalo do lado da cabeça. Também não tenho saudades – até hoje, o hoje tem sido melhor. Tenho o orgulho de ter sido uma pessoa do meu tempo e de conservar essa característica. Talvez seja por isso que, ao contrário de muitos colegas de planeta, não guardo rancor dos anos 80s. Acho isso tão… 90s!

*Nunca me recuperei do fato dela não ter ficado com Duckie no final.

*Texto: Helena Martinelli, Arte: Marie

Obs¹: Eu concordo plenamente com essa matéria e digo mais: nós somos a última geração queteve infância! Com briquedos e bricadeiras de criança mesmo. Com contos e histórias bizarras, com criancices e não adultices!

Obs²: Eu que coloquei um pro Bob Dylan pq acho digno!

Marie

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